Querido Romeu
Com lágrimas nas mãos escrevo essa carta que já começa atrasada. Suspeito, embora com certa dor, que jamais a lerá. E penso, com total ironia, que já a conheces melhor do que eu. Aqui estão as palavras que escrevi nas muitas cartas que lhe entreguei as unicas que tenho certeza que as leu desde que se foi. Algumas promessas, pedidos de desculpas, implorações de retorno. Sim, escrevi apelando, implorando tua volta. Escrevi porque, ainda, quando fecho os olhos, penso no teu rosto ao me abraçar, e dizer que tudo ia ficar bem , e penso no meu rosto te abraçando, e dizendo que tudo bem, sei que tuda vai ficar bem.
Mas ACABOU.
E estou agora aqui a pensar em quanto me faz falta estar a falar contigo, pensar contigo, sonhar, enfim, contigo. E quando me perguntam sobre o que aconteceu, digo apenas que acabou, há uns dois meses, e que tudo está bem, ou vai ficar bem, ou então, para os amigos mais íntimos, digo a verdade: não durmo bem, pois sonho, e não gosto de abrir meus olhos, porque não importe onde olhe, todos os lugares me lembram a ti, como faróis.
Dois meses? Faz mais tempo. Mas preciso acreditar que só foi há dois meses, para tentar entender porque continuas tão vivo dentro de mim. Preciso acreditar que não estou louca, nem obcecada com a ideia de te amar. Preciso crer que apenas acabou de acontecer e ainda posso sofrer.
Desculpe, estou sendo melodramática, e sei que pensarás exatamente isso. E por isso quero evitar qualquer tipo de lamentação exagerada, mesmo que não consiga evitá-las.
Enfim. O que queria mesmo era dizer que ainda penso naquele “nós” que sonhamos um dia para sempre. Desde o início queríamos isso, sabemos. Imaginar um futuro era tão bom... Sonhar com esse futuro era passatempo, lembras? Encontraste-me perdida em um coletivo cheio de gente, perfeita metáfora de uma alma num deserto de almas. Olhei para ti sorrindo como bolha de sabão. Olhou-me e sorri. Primeiro sorriso do dia. E me abriu de novo as portas da vida, e em algum momento deixei-me perder de amores por ti, e nesse momento, nessa horinha de descuido, me deixei apaixonar, me deixei então me enamorar por ti. Nessa mesma hora pensei, utopicamente, talvez, que seria para sempre.
Não foi. Agora, pensar em um futuro... Pensar que envelheço sem tua companhia me é tão doloroso. Sonhar contigo e logo depois acordar e tocar aquele lençol frio... Acordar e ver o sol e não ter-te ali para abraçar e dizer: olha que lindo, pintamos juntos, sabes?
Resta-me esperar, por qualquer coisa, qualquer força. Quem sabe um dia entras pela porta... Quem sabe um dia, chego em casa e (aleluia) estás lá, no meu quarto, lendo um dos meus livros enquanto me esperas... e me olharás com olhos cansados de sono: ah, meu amor, esperei-te tanto. E direi com a mesma voz cansada de bocejar: estou aqui agora, meu amor. Mesmo não gostando de esperar, assim sou. Não vou mentir para mim, tampouco para ti. Espero-te. E penso se não faço mal em não viajar hoje às onze da noite para te encontrar ainda de pijamas amanhã de manhã, com restos de sono no rosto, com cheiro de sabonete Dove, com cheiro de sonho. E tudo será como antes...
Será como antes?
Desculpa-me. Aceita-me. Aceita-me caso em apareça na tua porta às seis da manhã. Desculpa-me se eu não fui tua namorada como deveria ser. Ficava atordoada com tua presença. Ainda fico, com teu nome, teu rosto em fotos, tua presença, teu cheiro... teu cheiro em minha pele. Os teus cheiros todos. Ainda fico, com tua presença dentro de mim. Hello stranger... quando olho para ti. Assim falarei quando te ver novamente, e será como a primeira vez, contemplando estrelas e planetas, comendo chocolate Laka e rindo de qualquer coisa que falar.
Enfim. Não quero mais pensar. Não quero sequer imaginar. Por isso evito escrever romances e contos, e escrevo-te uma carta. Aqui, estarás mais autêntica. Mais real. Aqui, estarei mais autêntica, e meus sentimentos mais palpáveis.
No mais, são tudo lembranças, amor. E repito olhando para o pôr do sol: que seja doce. Que cada dia seja doce. Que a vida me torne doce. Que meus sonhos me tornem doce.
Assim espero estar quando a porta se abrir... E o futuro será uma linda bolha de sabão.
Beijos, os melhores do mundo, sempre.
Para sempre tua,Julieta...